Seguia o solitário professor de português e literatura, fixando sensações, aspectos e paisagens, num colorido paradoxalmente cálido e violento, numa harmonia estranha e indefinida,de ritmos, rimas e honomatopeias. O único prazer da aposentadoria era escrever. Navegava na torrente eloquente das imagens que criava, na grandiosa luz do pensamento e da criação, no lúcido cristal de suas ideias.

Os sonetos eram seu forte, épicos ou líricos, arrumados nos seus rigorosos quatorze versos. A natureza exercia sobre ele uma comoção cósmica, um reflexo quase imortal. Queria perpetuar a existência transitória, uma busca de imortalidade através do material escrito.

Dominava o espaço do sonho, no milagre criador do verbo de traço único, que o identificaria entre tantos. Erguia, de livro em livro, o seu Monte Tabor, flamejante de glória.

Poemas ternos e profundos, com amplidão estética, com símbolos supremos, métricas perfeitas, desnudando constelações, continentes, oceanos, enfim, todos os mundos divinos ou humanos. Sua lira era prodigiosa, arrebatava histórias de seus acordes, desgastava suas cordas nas noites insones, como se estivesse em busca do verso mais marcante...o derradeiro!

Queria mesmo era compor a letra de um hino de dor e revolta, que ecoasse no futuro de seus netos e bisnetos, exaltando o amor à pátria, tão vilipendiada, amargurada pela roubalheira e desonestidade dos políticos. Sua terra tão querida, tão aclamada por Gonçalves Dias, com suas palmeiras e sabiás, de gente simples e paisagens calmas, barbaramente agonizante na saúde, na educação...em tudo!

Educação! Deu seu sangue por ela! Vibrava em cada aula, fazia os discípulos gostarem da matéria que, até então, julgavam chata e inútil. Plantou em salas de aula muitos poetas, cronistas e jornalistas. Quem diria! O maior roteirista do cinema nacional foi seu aluno!

Valeu a pena! Mas... e seus netos? E o futuro? Esse conflito interno chegava nos momentos em que o espírito criativo estava em baixa. Porém, tão logo o retomava, seguia em frente em altos voos imaginativos.

Invadia também os arroubos febris da poesia contemporânea, misturando estilos, como o confeiteiro, que junta ingredientes diversos ao seu bolo. Viajava por cidades tentaculares, movia planícies e mares, metia-se na confusão de portos e gares, navios recortando vastidões, trens de ferro rasgando horizontes, vales e aldeias ilusórias. Povoava esses elementos com fantasmas envoltos em brumas, gesticulando ao vento ou sendo devorados pelas bocas esfomeadas dos moinhos. Seres transfigurados, que amavam a vida, amavam o amor, no múltiplo esplendor de serem deuses, heróis, apaixonados ou vilões.

E a pilhas de livros cresciam...cresciam! Nenhum foi editado! Imagina! Com uma miséria de aposentadoria! Mas seus descendentes e seus alunos venderiam ao mundo o seu nome! Estava fadado à imortalidade literária; disso tinha certeza. Uma cadeira com seu nome na ABL? Ora! Se Machado foi o primeiro, ele não se incomodava de ser o último. E Augusto dos Anjos? Só teve o único livro impresso depois da morte!

Hoje ele cochilou, debruçado na escrivaninha, um mínimo intervalo para descansar a mente tumultuada. O charuto caiu no chão, lambeu o tapete, beijando-o avidamente, bailou pelas pilhas, torrou estantes. Enquanto isso, o velho professor sonhava com um mundo novo, num sono do qual jamais acordou.

E lá se foram a vida, os versos, os livros manuscritos, os mimeografados, os datilografados e os digitalizados. Desapareceu em cinzas o seu canto profético divino. Uma cruel surpresa do destino. Nem uma página rabiscada restou. A única herança que deixaria...a sua cultura inútil!

Sua alma amargurada sentiu-se sob as rodas daquele trem expresso, daquela procissão de vagões, em forma de versos, que por fidelidade e amor o seguiam agora, numa indiferente e célere corrida sobre os trilhos da morte.

28 de junho de 2018-06-28

Maria José Zanini Tauil

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