De certa forma Ela sabia que aquele seria um jantar especial. Estranhamente, mas sem muitos questionamentos, decorou a mesa de uma forma que nunca havia feito.

Colocou flores do campo no vaso branco. Flores frescas, colhidas num jardim pelo qual passara, antes de chegar.

Uma toalha de renda branca e com perfume agradável, adornavam a mesa.
Dois pratos, de porcelana antiga, foram postos um à frente do outro. Duas taças de cristal e uma garrafa de vinho branco, frisante e bem gelado.

Talheres brilhantes e conservados, que por muito tempo ficaram guardados numa caixa um tanto quanto já puída, mas que ainda conservava o laço dourado, que a enfeitara, quando comprou, deu o toque final àquela arrumação.

Dois guardanapos de fino linho branco, também nunca usados, completavam a harmonia daquele jantar tão especial, para Ela.

A sala estava à meia luz. Luz de velas. E no centro da mesa uma pequenina estátua de um anjo completava o cenário.

Sentou-se delicadamente e observou a iguaria que seria degustada por Ela e por aquela senhora de cabelos brancos. Eles estavam presos por uma fita acinzentada e o rosto da senhora, um pouco marcado pelo tempo e tão conhecido por Ela, demonstrava que não havia mais entre ambas, uma sensação incômoda e estranha.

Olharam-se profundamente e sorriram uma para a outra. Por alguns instantes Ela achou que aquele encontro talvez a deixasse entristecida. Ou aborrecida.

Mas não.

Ela estava consciente de que aquele não seria o último encontro. Ocorreriam mais e, certamente, todos os que viriam pela frente, transcorreriam em harmonia.

Jantaram sem se preocuparem com o tempo. Calmamente.

A cada gole do vinho branco, Ela olhava para a senhora e a admirava. Era uma bela amiga, que sempre a acompanharia em todos os momentos.

Ela descobriu, naquele momento, o quanto a companhia daquela senhora faria bem à sua alma, pois ambas conversavam sem sequer emitir qualquer tipo de som.

O silêncio tinha um som refinado e puro, não mais angustiante com há tempos atrás.

Havia cumplicidade. Amizade sincera. Respeito.

Aquele encontro inusitado tornou tudo muito diferente.

Nada disseram uma à outra. O silêncio entre ambas foi uma comunicação apaziguada...um reflexo real, que demonstrou que agora, a partir daquele jantar especial, elas passariam a se entender pelo lado humano de cada uma delas.

Foi algo tão sublime que, com certeza, Ela gostaria de encontrar-se muitas vezes com essa tão conhecida senhora de cabelos brancos. No fundo havia muita ternura nos olhos dessa amiga inseparável.

Ela perdeu-se nas horas e ao perceber, a madrugada já ia alta e o corpo reclamou pelo descanso.

Soprou as velas. Sorveu o último gole do vinho. E foi repousar, sem pensar em todas as mudanças que ocorreriam a partir desse dia.

E adormeceu...

................................................................................................................................................

Esse jantar marcou, de uma forma única, a concepção dos dias.

E essa foi a melhor parte de todas.

Ela percebeu finalmente e sem angústia, que essa seria a melhor forma de contato que poderia existir.

Um contato mágico.

Entre Ela e a Ausência...

Angela Lazzari

(Aos dezesseis dias do Mês de Novembro de 2016).

Exibições: 27

Comentar

Você precisa ser um membro de Casa da Poesia* para adicionar comentários!

Entrar em Casa da Poesia*

Comentário de Verônica Noblat em 22 novembro 2017 às 13:38

Genial! Muito bom, Ângela! Parabéns!

Comentário de Jullie Veiga em 18 novembro 2017 às 8:27
Sempre que releio me emociono. É muito belo e tocante. Parabéns!

Editora Casa da Poesia

 Chegou

o Volume 7 da Antologia!

      À Venda Antologia

                VOLUME 6 

    

PARCEIROS

Nas Redes Sociais

                          CLIQUE AQUI

Fotos

  • Adicionar fotos
  • Exibir todos

Aniversários

Acesso ao CHAT da Casa

              Clique Aqui!

Badge

Carregando...

© 2018   Criado por Casa da Poesia*.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço

Offline

Vídeo ao vivo