Blog de Ricardo Cunha (17)

AUTÓFAGA

AUTÓFAGA

(sextina: fome, carne, pele, mente, toque, mesma)

Das entranhas lhe vem estranha fome

Que lhe consome toda a sua carne.

Frêmitos de sentir-se à flor da pele

Lhe agitam os desvãos da vaga mente

Ao perceber-se entregue ao próprio toque,

N'uma exploração húmida em si mesma.

Os dedos que percorrem a alma mesma

Têm no êxtase o saciar d'aquela fome

Certa de que, no corpo, o ser se toque.

Assim, a aura que envolve a nua…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 13 abril 2018 às 23:31 — Sem comentários

DON'ANA (sextilha)

DON'ANA (sextilha)



Era uma mulher do lar;

D'aquelas para casar

E que se quer sempre sua.

Que sabe bem seu lugar,

Pois, tem recato no andar

Quando passa pela rua.



"Don'Ana" tinha por nome

E um desejo que a consome

Desde quando pequenina.

Senhora sem sobrenome,

De ser alguém tinha fome:

Só p'ra casar se destina.



Noiva, era muito feliz,

Tendo tudo o que quis

Porque sempre do seu lado.

Por fim, para… Continuar

Adicionado por Ricardo Cunha em 12 abril 2018 às 10:51 — Sem comentários

CARÍCIAS (vilanela)

CARÍCIAS (vilanela)

Amemo-nos sem pressa, suavemente,

Ainda que a cidade a todo instante

Se faça com mil sons sempre presente.

Olhemo-nos nos olhos, frente a frente:

Tudo há-de acontecer ao teu talante...

Amemo-nos sem pressa, suavemente.

Busquemos o sorriso mais contente,

À espera que o prazer no peito arfante

Se faça com mil sons sempre presente.

Porque doce é o amor quando se sente

O rosto aberto em gozo d'uma amante:…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 11 abril 2018 às 23:39 — Sem comentários

VESTÍGIOS

VESTÍGIOS

Ainda deve haver restos de nós

Espalhados por esta residência.

Onde vestígios já d'outra existência

Debaixo de tudo quanto veio após...

Mas mais vazio há dentro quando sós

A saudade nos preenche toda a ausência.

Como quando uma luz na transparência

Revela em suspensão nuvens de pós.

Eu sem querer t'encontro de repente

E o passado fazendo-se presente

Me traz o teu sorriso uma outra vez.

E me pego sorrindo ali…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 29 março 2018 às 1:24 — 1 Comentário

LUPERCÁLIA (écloga)

LUPERCÁLIA (écloga)

I

Tinha uns olhos buliçosos

D'enxergar tão-só malícias...

Salivando d'antegozos

As rebuscadas delícias

De jovens belas mulheres.

Face a seus rostos mimosos

Imaginava as carícias

Que, virgens, guardam a esposos...

E busca, mesmo a sevícias,

Arrancar-se-lhes prazeres!

II

Dissimulava, contudo,

A sua extrema avidez,

Passando por sério e mudo

Àquelas que por sua vez

Lhe admiravam a…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 23 março 2018 às 21:18 — 1 Comentário

CIRANDA, CIRANDINHA

CIRANDA, CIRANDINHA

O anel que tu me deste se quebrou,

Tal-qual meu coração, em mil pedaços.

Eu junto os cacos de ambos; corto os laços

E deixo para trás o que restou.

O pouco amor que tinhas se acabou:

Secos…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 6 janeiro 2017 às 8:21 — 2 Comentários

O MONGE E A SERPENTE

O MONGE E A SERPENTE

prólogo

Contam que quando andava pela Terra

O iluminado espírito de Buda

Vivera em penitência surda e muda

Um monge seu ferido pela guerra.

Acolhido por Buda, mais se aferra

À sã meditação com que se escuda

A alma necessitada, pois, de ajuda

E que uma grande angústia em si encerra.

Aquele monge à paz se disciplina,

De sorte que mais nada o encoleriza,

Mesmo quando…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 29 dezembro 2016 às 9:45 — Sem comentários

PAPO D'ALCOVA

PAPO D'ALCOVA

Vem!... Vamos fazer um amor gostoso?

Agora-aqui, juntinhos, eu e tu...

Deixa-me te admirar o corpo nu

Enquanto já me pedes outro gozo.

Mas meu corpo de ti tão desejoso

Faz te querer d'um jeito um tanto cru

Que te vira e revira igual lundu

E se derrete ao teu olhar dengoso...

Corpo de mulher; rosto de menina...

Hás-de drenar-me a seiva masculina

Até eu me perder dentro de ti.

Recebe meu…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 21 dezembro 2016 às 9:45 — Sem comentários

HAGIOGRAFIAS

HAGIOGRAFIAS

I

são Francisco Xavier

Ir sempre mais além! Sempre mais longe!...

Por tocar de cada um o coração.

Que, se não faz a cruz bom o cristão,

O hábito tampouco faz o monge.

Ide-vos! Passo a passo mais se alonje

Quem fostes n’uma antiga escuridão.

Para que, exercitados na oração,

Esta às máculas d’alma lave e esponje.

Tende por armas antes a bondade,

Onde a misericórdia vos transborde

Desde o peito uma real…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 8 dezembro 2016 às 7:19 — Sem comentários

SILÊNCIOS

SILÊNCIOS

Não tenho olhos senão para os teus olhos...

Acredita-me, embora antigos medos:

Nossa história e seus tantos desenredos…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 4 dezembro 2016 às 6:00 — 2 Comentários

PÁSSAROS DE PAPEL

PÁSSAROS DE PAPEL



Menino empina pipa em sol a pino,

Que alta se solta e salta ao léu.

Na hipérbole da linha, chega ao céu

Enquanto o vento a põe em desatino.



Poeta só de ver já se vê menino,

Tão imerso de andar de déu em déu.

Pois lhe colore os versos no papel

O brinquedo d'aquele pequenino.



O vento leva pipa e poeta longe...

Mais pipas vêm tosar com seu cerol

E enchem de cor o céu da tarde ao sol



O tempo passa… Continuar

Adicionado por Ricardo Cunha em 19 novembro 2016 às 10:04 — 2 Comentários

MÃO A MÃO

MÃO A MÃO



Não se traduz amor em poesia

Tanto quanto amizade enreda prosa...

A vida pode ser maravilhosa,

Se caminharmos juntos algum dia.



Dá cá a tua mão... Sê minha guia!...

Mesmo distante a aurora que o olhar goza,

Nossos passos na estrada pedregosa

Deixam pegadas p'la poeira vazia.



A vida apenas segue sem chegar;

A morte não é meta: Cerra o olhar!...

E andamos mão a mão até aqui.



O vento apagará rastros na… Continuar

Adicionado por Ricardo Cunha em 17 novembro 2016 às 15:29 — Sem comentários

EROS E TÂNATOS

EROS E TÂNATOS

Sinto na boca o gosto já dá morte.

Sinto-o meu sangue vindo das entranhas...

A mente se me perde ideias estranhas

E após morrer de amor, viver sem sorte...

Passo sem que ninguém mais me conforte

Em meio às minhas falas mais tacanhas.

Levado só por manhas e artimanhas,

Ao modo de quem faz da paixão esporte.

Do amor os infortúnios só eu tive...

E a vida corre como por penhascos

Um córrego que a quedas sobrevive...

Da…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 16 novembro 2016 às 12:48 — Sem comentários

SENHORA E DONA

SENHORA E DONA



Só faz de humano macho seu capacho

Aquela muito dona por mandona.

Rainha que ao coração d'alguém se entrona

N'um olhar verde gaio, mechas em cacho...



De quando em quando solta um esculacho

E o outro sua que nem em maratona,

Passado o tempo certo, ela o abandona,

Quiçá ainda mais bonita, eu acho...



E tudo se passou d'essa maneira:

Quem, entre interessada e interessante,

Se preferiu, por fim,… Continuar

Adicionado por Ricardo Cunha em 13 novembro 2016 às 7:06 — Sem comentários

ALEGRO

ALEGRO

Amanhece e já canta o passarinho

A sua melodia docemente.

Paro para ouvi-lo, displicente,

Enquanto repetia o meu caminho.

Música ou não, aquele barulhinho

Era algo assim tão terno e tão dolente

Que soía fazer cócegas na mente

Tal a alegria em seu trinar sozinho.

Dou-me conta ao escutá-lo que feliz

É quem percebe a música de tudo,

Entendendo o que cada coisa diz.

 

Pouco importa se a ouvir aves me iludo,

Todo imerso…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 28 outubro 2016 às 12:22 — 1 Comentário

O PECADOR

O PECADOR

Têm meus olhos a exacta e vã medida

Da extensão da maldade que há no mundo.

Executei-e-sofri o mal, fecundo

Foi seu lavrar por toda a minha vida

Anos de mocidade à inadvertida

Experimentação do que é imundo!

Busquei sempre prazer, poço sem fundo,

Atrás d'uma beleza corrompida...

A esconder-me do bem, relativizo.

Até que se me impôs, sem prévio aviso,

A minha volta triste e…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 25 outubro 2016 às 11:22 — 2 Comentários

NOVEMBRADAS

NOVEMBRADAS

Não sei se alguém está contando os dias,

Só sei que mês que vem fará um ano...

O tempo passa sempre soberano

E indistinto a tristezas ou alegrias.

Dez anos se passaram nas sombrias

Horas em que nós -- não sem perda e dano --

Vivemos plenos esse encontro humano

Que uns chamam amor; outros, agonias...

Novembros têm sido aqueles meses

Nos quais por repetidas-mas-vãs vezes

Acontecem chegadas e partidas.

Hoje, a…

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Adicionado por Ricardo Cunha em 24 outubro 2016 às 12:50 — 1 Comentário

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