OS MAIS LOUCOS ESTÃO AQUI FORA

Você tem ideia de como funciona uma clínica psiquiátrica? Tive a oportunidade de conhecer, acompanhando minha neta, menor de idade, com quadro sério de depressão.Ela pediu a internação, para proteger-se de si.

Ao chegarmos, a menina foi totalmente despida, para ver se havia algum objeto oculto nas vestes. Das suas roupas, muitas foram recusadas. Das minhas, também. Livros tinham que passar por psicólogas, celular, nem pensar, dinheiro também não. Qualquer coisa comprada na cantina era anotada na ficha do paciente. Passa-se por uma porta grande de ferro, com cadeado e a poucos metros, outra porta igual (uma espécie de cela de presídio). Por fim, adentra-se por um corredor que dá num enorme pátio. Dali, outra grade com cadeado e só então, o elevador, que nos levou ao primeiro andar. No quarto, banheiro fechado à chave até que a menina tivesse vontade de urinar, para que o líquido fosse colhido para verem se havia droga. Exame de sangue também.

Portas sem trinco, quartos sem TV, sem frigobar, janelas de vidro que não abrem e grades fixas. Falo da clínica psiquiátrica mais cara do Rio de Janeiro.

A minha neta foi pelo plano de saúde, pois as mais em conta não aceitam menores. A diária é de novecentos e sessenta reais e a do acompanhante, quatrocentos. Existem muitos tipos de doenças mentais e entre os depressivos, alguns com ideias suicidas. Por isso, a falta do fio de TV, de fio do frigobar, que podem ser usados para estrangulamento. Armários sem chaves e sem cabides. Até a escova de dente era pega na enfermaria só na hora do uso. Já houve caso de uma mulher quebrá-la e enfiar a parte quebrada na jugular. Nem o controle do ar condicionado fica em mãos. Fica ligado dia e noite e controlado pela sala de enfermagem. Muitas portas de ferro, muitos cadeados. No restaurante, talheres e copos plásticos.

Quando o interno chega, seus pertences são selecionados. Tênis só os sem cadarço, cintos, nem pensar, blusa de alça também não . As alças podem ser usadas para o fixo propósito. Lá, depois da primeira conversa com a psiquiatra, recebem pulseiras fixas, que só conseguem sair se cortadas com tesoura. As azuis indicam depressão, amarelas indicam que o interno corre risco de cair por causa dos medicamentos que usa, douradas, risco de suicídio,verdes,dependentes químicos.

Lá uma vez ou outra, algum esquizofrênico em crise. por ter sido contrariado em suas vontade. grita, soca paredes e alguns até tiram a roupa e desfilam pelados pela clínica. Durante o dia o acesso é livre aos jogos, à biblioteca e as salas de atividades: música, ginástica, terapia de grupo, Yoga, desenho. A piscina é toda gradeada e o acesso é só com o professor de educação física em pequenos grupos.

As visitas são diárias, às 5 da tarde, com a duração de uma hora, máximo de quatro pessoas por interno. Aos sábados, eles podem receber parentes para almoçarem juntos, desde que paguem por suas refeições.

Falando em refeição: café da manhã ,às oito e trinta , com frutas, sucos (bem variados) colação às dez, almoço às doze e trinta, com muitas opções, lanche às três da tarde, janta às seis e trinta e ceia às 9 da noite.

Depois da janta, dois rapazes pegavam violões na sala de música, sentavam num canto com as meninas e cantavam,,,cantavam até oito horas.

Às oito da noite todos são recolhidos das conversas, dos jogos, do grande pátio e seguem para o seu andar. No primeiro, pacientes que ainda estão sendo diagnosticados, no segundo, só mulheres e no terceiro, só os homens. Em cada andar grades e cadeados, que não permitem nem entradas nem saídas, a partir de então.

As histórias que se ouve são tristes, algumas dramáticas, outras sem motivo,muita carência afetiva, muito grito de socorro que não é ouvido, autoestima em baixa. Jovens muito sensíveis e doces. Uns revoltados; uma menina odiava a mãe porque casou pela segunda vez e não acredita que seu marido a molestava, um menino que largou a escola e não dormia , vinte e quatro horas ligado em jogos eletrônicos. Esse chamava o pobre do pai, que o acompanhava de maldito, de veado, socava suas pernas dizendo que queria voltar para casa e só se deixava de ouvir seus gritos quando depois de uma dosagem de medicamento, que relutava em tomar, dormia como um anjinho. Um mimadinho de treze anos.

Conheci um médico, jovem de vinte e sete anos, que se drogava para manter-se acordado para estudar para a especialização.Um outro, também jovem, que quase não saía do quarto e, quando o fazia, era com um livro de urologia debaixo do braço Uma mocinha, atirou-se do décimo segundo andar, mas conseguiu agarrar-se à grade de baixo e gritou por socorro. Também tinha um ex jogador de basquete, com alguma deficiência por pancada na cabeça. Estava lá há três anos e não queria ir embora. Às vezes saía para um fim de semana , mas retornava. Havia uma escritora internada pelo marido porque exigia separação. Depois de vinte dias, ela saiu num carro de polícia. As próprias filhas deram parte do pai. Uma atriz de sucesso, que vinha de São Paulo, onde mora por preferir essa clínica. Já esteve lá três vezes por depressão profunda.Só saía do quarto para comer.

No andar, depois das oito, muitas poltronas numa grande sala de visita e TV, todos observados pelos enfermeiros plantonistas da sala de enfermagem envidraçada, De vez em quando, cada um é chamado para tomar remédios.
Mais segura de si, minha neta passou a ajudar outras meninas que chegavam, em suas crises de ansiedade. Mandava respirar fundo, segurava suas mãos, fazia carinho e fez amigos.

Entendi como é fácil para nós reclamarmos de pequenas coisas e como é grande o número de pessoas desesperadas. Quantos se jogam mensalmente da ponte Rio-Niterói e nem ficamos sabendo? Há no meio médico o propósito de abafar os casos, pois já perceberam que quando são divulgados, muitos outros acontecem. Uma espécie de atração maldita pela desgraça.

Você sabia que voluntários se revezam na Ponte Newton Navarro, em Natal, para evitar suicídios? Foram cem suicídios em um ano! Tem ideia de quantos se jogaram nos trilhos do metrô do Rio?

Apesar dos números, a prevenção do suicídio avança. Na década de 1980, estudo nos EUA afirmavam que essas mortes poderiam ocorrer por imitação. E esse trabalho reforçou a ideia de que "não podemos falar sobre o assunto"

. Mais de 30 anos depois, a Organização Mundial da Saúde vai na direção contrária, dizendo que, sim, precisamos conversar sobre o suicídio, fazer campanhas educativas..

"Não é proibido falar, só não podemos falar de forma errada. Não podemos glamourizar, nem ensinar técnicas”.

Além da medicação necessária, do terapeuta de confiança, é preciso andar de mãos dadas com Deus. “No mundo terás aflições, mas tenha bom ânimo, pois eu venci o mundo.”

Infelizmente, muitos até se afastam da oração, alegando falta de concentração, outros, nem creem.

Ontem ouvi o padre Marcelo Rossi contando que recebeu uma carta perguntando como uma pessoa que prega o amor a Deus , como ele, pode confessar que teve depressão. O religioso respondeu que justamente por ser um homem de fé, lutou contra essa doença que o oprimia e chegou à cura.

Minha neta amadureceu. Ela aproveitou de tudo que lhe foi oferecido naqueles trinta dias.Foi ao baile de formatura em dezembro, com o tal médico de quem falei, Ele se diz apaixonado por ela. Meu genro, apreensivo, diz que não existe ex drogado, eu, mais otimista, digo que sim, pois foram muitos os alunos que me faziam confidências. Mas ela não quer namorar, quer focar nela, conhecer-se mais através da terapia. Mudou o visual, faz musculação, um tipo de luta e aulas de piano. Umas pequenas férias para começar em fevereiro o curso pré vestibular, Antes, queria ser geriatra para cuidar de mim...agora, quer ser psiquiatra, para entender a mente humana

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Respostas a este tópico

Depoimento corajoso e essencial ! São muitos os que precisam de ajuda e nem sabem, ou não sabem pedir. Precisamos estar atentos todo o tempo !
Parabéns querida, por essa vitória.
Bjss Wau



Waulena d'Oliveira Silva disse:

Depoimento corajoso e essencial ! São muitos os que precisam de ajuda e nem sabem, ou não sabem pedir. Precisamos estar atentos todo o tempo !
Parabéns querida, por essa vitória.
Bjss Wau



Obrigada pela leitura, querida Wal!

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