No silêncio das horas apenas palavras permaneciam inquietas. Tudo o mais dormia, indiferente ao tempo, ao momento.

O quarto tornara-se pequeno demais para tantos deles. Havia os antigos e os novinhos, ainda sem qualquer folhear... Havia uns imponentes de capa dura e outros mais modestos, brochuras mesmo.

Separados nas prateleiras em ordem criteriosa, ficavam inertes, à espera de serem escolhidos. Entediavam-se ...

Quando alguém se aproximava, com o coração aos pulos, torciam para que fossem colhidos  -  mesmo que fosse para ficar na pilha ao lado da cama ...

Um dia um livro vermelho, nem era muito grosso, começou a resmungar sozinho, reclamando que aquilo não era maneira de tratar todas aquelas palavras – camaradas operárias -  que haviam sido cuidadosamente arranjadas em frases, que traduziam ideias  tão  importantes  para  o  futuro  das nações ... Ouvindo o queixume, outro livro, com sotaque afetado, da outra ponta da prateleira respondia “espere pra ver. Não vão dar em boa coisa essas suas ideias ...”  Rapidamente aquela prateleira dividiu-se ! Uns à favor do Livro Vermelho, outros não queriam nem enrubescer de raiva para não ficarem parecidos com ele ...

“Uma coisa eu tenho que admitir” cochichou com um vizinho um livro amarelado, com as letras já esmaecidas pelo compulsar de mãos,  “esse Vermelho sabe agitar as multidões... Nunca vi tanto movimento por aqui !”

Realmente, uma agitação assim nunca ocorrera por ali ...  Como se de repente aqueles livros tivessem entendido que continham mais que folhas, que neles havia vida, batalhas, viagens, ensinamentos, gargalhadas, paixões, lágrimas – TUDO !

Timidamente um livreto em tom pastel, que estava mais perto da janela, suspirou ... No andar de cima um livro orgulhoso de suas receitas espichou a capa para ver o que acontecia. “O que há com você ? Por que não nos apresenta alguma coisa, conta uma história ? Não sabe nada de interessante ?”  E o livreto levantou os olhos e respondeu : “não ... só tenho versos em mim ...”

E assim passaram-se as noites dali por diante. Mal a casa se aquietava e as estantes começavam a algazarra. Durante o dia alguns se esforçavam para cair no chão, na esperança que algum desavisado os colocassem em prateleira diferente; assim poderiam conversar como novos parceiros, sobre novos assuntos – às vezes dava certo por um tempo ...

Todos pareciam mais viçosos desde então, menos empoeirados. Menos o livreto em tom pastel ... Sempre com as pontas cumpridas, espichadas para a janela ...

Um dia, uma menina que nunca tinham visto, escolheu justamente o livreto! Sentou-se aconchegada na poltrona e começou a ler em voz alta os poemas do livreto. De repente todos os livros prestaram atenção na magia daquela doce voz, nas rimas de amor, nos versos livres ... Ficaram surpresos ! Quanta beleza naquele pequeno livreto !!

Naquele dia, aprenderam uma lição. Não se pode avaliar um livro por sua capa, sua idade, sua aparência. Nada disso importa, só o seu conteúdo !

E aprenderam mais uma coisa : não adianta encher o mundo de ideias e conhecimento se nele não houver poesia ...

Waulena d'Oliveira

 

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Fiz uma analogia desse livro vermelho com a política. A teoria na prática é outra. Só o amor que a poesia inspira pode salvar o mundo. Lindo!

Sem o olhar poético que dá valor as coisas da vida, nada funciona, independente da cor e da riqueza da capa. Conteúdo é tudo. Beijo, amiga!

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