No quarto escuro, 18:39, dois focos de luz a minha frente. Um laptop do trabalho, outro do trabalho também. Um eu escrevo, outro respondo dúvidas. São dois universos complexos em minha frente. Não vi o dia raiar, não vi a tarde chegar, não vi a lua surgir. Sei que ela está lá porque meus gatos estão assistindo a cena.
Pela janela vejo um avião: para onde será que ele está indo? Ou será que está vindo? O que pensam as pessoas que nele estão? Estão indo realizar um sonho? Então atrasados para o jantar? Estão chegando cansados de uma reunião? Alguém ali está com medo do avião não conseguir pousar? Eu sempre tenho esse medo e ele sempre pousa. Ligo a TV na tela está um pastor exorcizando alguém. O quão perdido uma pessoa está a ponto de achar que precisa de uma salvação, seja ela de que tipo for!? Algumas mulheres esperam a salvação pelas mãos de um homem, outras pessoas esperam um coração, outro tem que morrer para o coração chegar. O que é sorte o que é azar? O que é sucesso e o que é fracasso? Neste momento tenho uma amiga de dez anos que espera a salvação da mão de um médico ateu. Nada mais importa quando achando que a salvação está em determinado lugar. Corremos em direção a ela, cegos, não importa se ele acredita ou não.
A tela do laptop me diz que alguém espera a salvação, desta vez, de mim. Penso se posso salvar alguém, concluo que sim, porque eu me salvei. O que me amedronta não é não conseguir. É o que posso me tornar.
Estou há doze horas olhando para esses dois focos de luz. Meus olhos doem. Minha coluna arde, meu estomago grita para que eu não tome mais uma jarra de café. Me lembro que faz muito tempo que não sento naquela cadeira de balanço para ler um livro. Não tenho mais tempo, estou trocando meu tempo achando que estou ganhando, mas será que não estou perdendo? A cadeira virou um armário, tem roupa desde a primavera. Afinal, quando foi? Não vi o passar das estacoes, apenas sinto quando tenho que ligar o aquecedor.
Muitos textos, muitas ideias, muitas soluções e será que a cirurgia da Isa está dando certo? Acredito, assim como ela, que terá salvação. Ela é mais corajosa que eu nos meus quarenta anos recém completados – penso. Na vida real é assim. O silêncio é interrompido por uma batida de carros. Nada fora do normal em uma metrópole. Sempre que surge esse barulho corro para ver quem são os personagens, ninguém grita, ninguém xinga, já estão habituados. Penso na capacidade da gente de adaptação até do que é ruim. Queria mesmo ver a luz da aurora boreal. Mas sou covarde o bastante para não ir.
Mudo a tela e observo as fotos de amigos na tela do laptop. Me lembro de tanta coisa... E vejo que a Isa está no quarto, deu certo, ela foi salva! “Boa, guria!!” – vibro.
Leio comentários na foto, ninguém agradece aos médicos, onde será que eles estão? Será que se ofendem? O que será que eles pensam depois? Tomam um café? Sentam exaustos no chão? Olham as telas também? Ninguém se lembra deles, todos digitam “amem”. Nem sempre tão sinceros. É uma forma de manifestação, acredito. Mas cada letra digitada esconde dentro de si uma intenção. Cabe a nós decifrá-las?
O tempo vai passando, e já não me empolgo com discursos piegas. Eles quase sempre são atestados de descompromisso com a realidade que não cabe neles, o mundo lúdico nos salva da morte, da nossa e das dos outros. Por vezes, melhor é ficar de bico fechado ou de dedos parados.
Entre todos esses mundos que acesso pelo brilho das telas, fico pensando. Talvez eu espere que se elas apaguem sozinhas ou talvez eu mesma baixe a tela. Cansei. Deu! Deu enjoo.
No fundo, bem lá no fundo e por mais que a lógica me deixe convicta, eu quero acreditar que há alguém acima de tudo isso, controlando tudo calculadamente para que exista um final que faça sentido para todos assim como um Copolla ou Wood Allen em um de seus filmes, para quem realidade e ficção não fazem diferença alguma.
E não fazem mesmo.

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Respostas a este tópico

As telas do notebook e do celular são indispensáveis pra mim, mas se demoro fazendo uso delas, minha mente cansa.
"Façamos então uso das coisas que necessitamos até o momento em que nos dê prazer". Para muitos, o que acabei de escrever é ficção. Um ótimo dia, querida! Parabéns pela texto!

Obrigada, Zezinha! Beijos <3

Vivemos? Prosseguimos?
Ou...Estagnamos?
Ficção?
Ou realidade?
Incógnitas....
Eis a nossa realidade!

Reflexões e verdades!!! O encontro com o eu.
Parabéns!

Intensa a sua crônica! Ela prende! Quantas interrogações! Quantas respostas não dadas! Um médico falou em tom de brincadeira que suou a camisa para salvar uma pessoa. Todo animado, ao dar a notícia, a família explodiu em alívio: - Graças a Deus! Como você, acredito, sim, que há alguém que manipula os pauzinhos, inclusive as mãos do médico. Parabéns e um grande abraço!

O tentar se descobrir através da escrita é algo fantástico... a gente viaja, volta, vai de novo, e assume papéis... indagamos e procuramos as respostas na cabeça de quem lê. Será isso?
Fico pensando se as respostas não estão dentro da gente, assim como a felicidade que as pessoas teimam em procurar nos seus pares... bom, quando cessam as possiblidades de resposta é que lebramos de algum ser que olha por tudo, controla tudo e está acima de tudo isso... e aí concluo que esse é o grande erro... Deus está eem tudo, ele não controla ninguém,cada um é que se controla e com o seu poder cognitivo pode optar por fazer ou não...
Uma vez eu vi perguntarem a um estudioso de teologia o que era o espírito... como identificá-lo no outro... ele respondeu: Você quer saber o que é o espírito? Olhe para uma pessoa que morreu e está lá deitada, você entenderá imediatamente. É isso que nos separa da realidade e da ficção, porque no mundo verdadeiro, no real, as coisas podem nos fazer sentir dor... na ficção, você escolhe a dor. Será que dá pra dividir as coisas assim???? Bom... preciso de outro site pra continuar vociferando aqui...rsrsrsrs.
Beijo e parabéns pelo texto... complexo, ímpar e intrigante.

Impressionante reflexão. Mais que ficção, realidade nossa de cada dia ...
Estamos cada vez mais perdidos e imersos nessas luzes ? O quanto nos afastamos da realidade física de nossas vidas ?...
Um texto excepcional ! Obrigada pela leitura.
Bjss Wau

Obrigada, querida, Waulena!

beijos

Obrigada, meu amigo, incentivador e editor, Renato!! :)

Sei que você tem essa complexidade tambem!

Obrigada, amiga, Maria José!!

Sou agnóstica, mas compreendo o que diz!

Obrigada pelo carinho!

beijos

Obrigada, Maria Luiza, é uma honra receber teu elogio!

beijos

Jani Brasil, obrigada pelo carinho.

Super beijo :)

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