Eu a encontro quase todos os dias no elevador, descendo e subindo, eu e ela passamos quarenta segundos das nossas vidas dentro de uma caixa, e dia sim, dia não, as vezes menos, as vezes mais, nossas existências se cruzam por acidente.

Uma caixa que nos confina e somos obrigadas a nos encarar, me pergunto se existe acaso.

Olho para essa senhora, mas ela olha para o chão, ora fita os números dos andares contando um a um e os segundos correm lentamente quando há tensão no ar.

As mãos tremulas, salpicadas de sardas ruivas, a pele flácida, o cabelo pouco, a tinta em tom castanho nas pontas revelam os brancos, revelam a desistência da vaidade.

Nunca sorri, nunca vi seus dentes.

O olhar é perdido, pensei ser estrábica certa vez, mas conclui que aquele estrabismo buscava algo, talvez não saiba se para lá ou para cá, para cima ou para baixo, penso que talvez, os olhos tenham se cansado da busca e estacionaram de qualquer jeito como quem abandona uma bicicleta no campo para sair correndo rumo ao infinito.

No começo era: “-Como faz calor neste lugar! Tomei chuva ao vir da feira!” – e depois: “

-Você já me ouviu pisar alto no teu teto? Desculpe, eu corria para dar remédio a minha filha com câncer, recebi reclamações da portaria não sei de quem veio, e se foi a você que incomodamos, nos perdoe, era urgente, ela precisava da morfina.

Respondo que não, jamais ouvi tal barulho, mesmo porque, nasci na Av. Paulista, os sons do desespero urbano foram minhas canções de ninar.

Pergunto como ela está e ela diz que: “morreu, aos trinta e oito anos de idade”.

“-Pois é, o meu chinelo batia no chão, eu tinha que correr, não é mesmo, menina? Então me perdoe, me perdoe”.

Sim, senhora do elevador, te perdoo por ter me feito chorar, e perdão, pela vida ter te ferido tanto.

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Respostas a este tópico

A desistência da vaidade acontece quando não se sonha mais, quando não se tem mais esperanças. Comovente e reflexivo. Faz-me pensar na efemeridade da vida. Parabéns! Você é uma escritora!Muitos brincam de ser, inclusive, eu. Um grande abraço!

Sempre que estou em algum lugar com pessoas que não conheço como: sala de espera no médico, fila de banco etc. Fico imaginando o tanto de histórias que estão ali guardadas nas gavetas da intimidade de cada um. Parabéns pelo texto! Beijo!!

Um mundo de sentimentos em tão poucos segundos, em tão poucas linhas... As pessoas passam e levam seus sonhos, suas dores... Alguns, nem sonham... Aplausos Toalá, tocou meu coração.

Emociono-me Toalá, é exatamente assim, tantas vidas, tantas historias e tanto ensinamento em cada uma delas... se tivermos tempo para olhar com singularidade seremos mais humanos.
Parabéns amei!!!!!

Uau, obrigada, Maria José, é uma honra receber um elogio tão rico como o teu!

Super beijo!

Verdade, Zezinha, somos universos complexos e particulares. Cada ser um planeta a ser visitado. Beijos :)

Obrigada, Eva! É bom tocar as pessoas através das letras! É mágico! Um grande beijo em você.

Realmente, Verônica, o segredo é a obervação individual e a empatia. Muito obrigada pelo carinho e elogio. Beijos em você.

Parabéns!! Faz-nos refletir em como tudo é efêmero. E como por vezes, a vida nos tira a esperança, fazendo com que nossa vaidade se perca pela caminho. Adorei! Beijos.

E a nós , comovidos, que também sentimos turvar a visão ...
Que momento ...
Obrigada por ele !

Bjsss Wau

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