Ruídos na casa: o miado do gato que mora no armário, o miado do gato brigão, o miado da gata rejeitada cinco vezes.

A sacodida do vento nas janelas, a notificação da rede social (qual delas?), a moeda que cai sozinha do balcão, o desejo de ser um espirito para me desestruturar e abalar todo meu ceticismo, porém penso: antes a casa vazia, do que uma reunião de ladrões.

Ladrões de paz, de coisas, de solidão.

É preciso amor próprio, estar apaixonada por si mesmo, caso contrário, não se janta sozinha, não se abre um Bordeaux francês, não saca uma rolha com dificuldade, desistindo e afundando para dentro da garrafa. Pouco importa, ela abriu.

Não há solidão, mas observação.

A voz interna é a cia do jantar, quando queremos calar, convidamos alguém.

E não, prefiro que não seja a voz de um moralista, nem de uma santa, eu prefiro as putas. As putas são puras.

As puras são putas. As putas têm a autoridade moral explícita, clara, apaixonada. A honestidade vem delas.

Fico atenta as puras. Bukowski tem razão.

Penso estar sozinha, mas Bukowski sempre me acompanha.
Chega a vez do estrondo do trovão, a luz caindo que afeta a sequência da playlist do Spotify, tocava algo dos anos 80.

Penso estar presa lá. Penso que meu pai adoraria toda essa tecnologia. Onde será que ele está?

Será que ele ainda existe em algum lugar?

Tenho inveja dos religiosos, uma fantasia sempre conforta o medo do “tudo acabar”.

Não possuo.

O templo, é minha carne.

Nele habitam poetas.

Habitam anônimos.

Habitam medos.

Habitam letras.

Depois dos barulhos, o silêncio da sintonia fina.

Os gatos parecem saber de algo que eu não sei, eles não contam e eu não sei interpretar o enigma.

É alguém do além? É uma mosca? É o vento? É o biscoito? Em uma questão de segundos, congelo o tempo.

É bom estar sem cheiro de cigarro, sem moveis entulhados, sem aproveitadores e hipócritas.

No passado quis estar aqui, e aqui cheguei, aqui estou.

Mais um gole de vinho e “o que é isso tudo?

Uma realidade paralela?

Ninguém imagina, no entanto, que a verdadeira mágica não acontece no que é visível, mas sim no invisível.

Invejo os gatos.

Eles sabem, Bukowski sabe e os ruídos contam.

Toalá Carolina

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Respostas a este tópico

Pensamentos... Tantos pensamentos povoam a mente quando estamos sós. Viajamos com uma bagagem que
ora cansa, ora satisfaz. Nem sempre nesses momentos nos sentimos solitários, percebemos que somos boa companhia para nós mesmos. Beijo!!

E então... estarmos sozinhos e passarmos a nos entender e a nos aceitar como somos e ter consciência do que não somos... e o mundo se torna fácil e contemplativo e a paz reina interior ao observarmos cada detalhe, cada rachadura na parede que acaba nos parecendo óbvia e aceitável.
O tempo passa, o mundo passou, tudo funciona à volta e vamos envelhecendo jovens e solitários,e aí entra Bukowski... será isso? Aquilo nos revolta e vira assunto interno... rimosdo absurdo e escrevemos em tom de sarcasmo mórbido, um tanto obceno até... porque a obcenidade faz parte das nossas vidas naquele recôndito particular, e isso é lúdico, traz saciedade de alguma forma.
O certo vira o incerto e os mundos se confrontam... o que escolhemos, o que tivemos que viver e o que gostaríamos de viver... porque triste não é morrer, triste é não ter vivido o que queríamos ter vivido, como disse o poeta citado em outras palavras.

Seu texto ultrapassa os limites da realidade crua e torna a nossa alma nua... superou expectativas em todos os sentidos.
Seja muito bem vinda a esse mundo paralelo onde se inventa poesia com inspiração e certo traquejo de usar as palavras em combinações sinceras e ficcionais, uma se contrapondo à outra muitas vezes... voltamos ao começo. Ouço ruídos na Casa.

Beijo e parabéns pela estréia.

Brilhante! Encontrei-me. Não conheço solidão; meus vazios são repletos e as vinte e quatro horas do dia são poucas para eles. Parabéns, Toalá! Ganhaste uma fiel leitora.
Beijos,

Parabéns pela estreia !
Gostei muitíssimo do teu estilo. Visualisei cada momento !
Esse é o poder das letras ...
Bjss Wau

Saber encontrar-se, na solidão e em meio ao invisível, traz-nos a capacidade de reconhecer que a melhor companhia, somos nós mesmos! Parabéns Toalá, belíssimo texto de estréia! Um beijo.

Muito bom!! e nesses silêncios, tudo o que se observa grita... ouço-me, ouço cada canto contando um conto ou um verso... converso com todos os olhares de todos os lugares.
AMEI!!! Fiz uma viagem! Parabéns!Beijos

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