Personagens reais – Uma professora
Sou daqueles seres que adora conhecer personagens. Reais.
Não errei de texto não. Comecei exatamente como a última crônica publicada.

Mais um dia cinza e frio no sul. Uma Escola da periferia. Morro. Comunidade.
Ela, professora substituta. Moça bonita. Corpo bem feito. Com certeza poderia ter seguido carreira de modelo se assim sua decisão e sua sorte o quisessem.
Decidiu ser professora. Lotada no “laboratório” da escola. Laboratório não significa neste caso, sala de computadores ou materiais de pesquisas cientificas. Quando muito algumas atividades lúdicas, quando o professor se esforça muito.
Voltemos à moça. Na noite fria do sul. Um dos seus alunos é dado como fugitivo. Conselho Tutelar chamado. Chama quem? Diretora, professora, pois não tem a quem chamar.
Mãe consumidora de pedra. Padrasto abusador e bêbado. Avó violenta. Avisam que ele está morando na rua. Em companhia de moradores de rua que são quase como “hippies”. Ele parece gostar é claro. Música, um pouco de maconha, risadas, não violência, uma cobertinha quiçá....Acolhimento.
A Moça professora vai então até o local. Não é seu horário de trabalho. Mas ela via no menino o interesse pelas atividades e nos olhos uma certa esperança de vida. Quem sabe....
O menino está com as roupas molhadas, com frio e parece estar com fome. Não aceita nada, quer se mostrar valente. Está começando a se blindar na escuridão da miséria humana. Ela compra um cachorro quente e lhe empresta a jaqueta.
Quase meia noite. Ela também está começando a ficar gelada. Tenta convencer o menino que uma casa é melhor que a rua. Que nada! “Voce não saber o que é apanhar todo o dia profe”.
Aí chega o Conselho Tutelar... meia noite. Tens que voltar pra casa menino. Que casa?
Ou então ir para o abrigo. Entram em negociação...
O menino olha para a sua professora e pede um abraço. No abraço balbucia: “Professora você me adota?”
Como será que a “profe” dormiu nesta noite? Como será que ela volta para a escola no outro dia? O teto quase caindo e o chão molhado. A miséria humana batendo à porta que segue aberta.
“É tia, esta é a realidade da escola da periferia. Mas mesmo assim, sou professora!”
Abraço a moça professora para que ela não veja meus olhos marejados de lágrimas. Totalmente impotente que estou.

Honrando a história feminina da minha família, dedico a coluna 100 a todos os professores e professoras reais deste Brasil. Especialmente à minha sobrinha Bárbara, real personagem desta crônica.
Vivemos época de demonização de professores. Vivemos épocas de idealizar escolas particulares esplêndidas para poucos, enquanto a realidade da maioria da educação é extremamente decadente. E os professores?
Sobreviventes!

By MLK 06/09/2019

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Verdade, amiga! Sei bem o que e isso. Até apagador e giz eu tinha que comprar. Cansei de levar alunos da periferia para passar o fim de semana na minha casa, tratava dos piolhos, sofria com suas carências.

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