Literatura de transição:

O Humanismo situa-se numa fase de transição entre a decadência dos valores feudais e o surgimento do Renascimento. Uma das principais obras do período, a peça Auto da Barca do Inferno foi representada pela primeira vez em 1517. Ela integra a famosa trilogia das barcas, composta também de Auto da Barca do Purgatório (1518) e Auto da Barca da Glória (1519).

A ação do Auto da Barca do Inferno se passa em um porto, situado em um mundo além-túmulo, no qual estão ancoradas duas barcas: a primeira, comandada pelo Diabo, tem como destino o inferno; a segunda, capitaneada pelo Anjo, seguirá para o paraíso. Nota-se uma visão de mundo cristã, baseada na crença de vida após a morte e na recompensa das virtudes e punições dos pecados.

Nessa peça, Gil Vicente (1465-1536?) critica os setores da sociedade de seu tempo: diversos representantes das classes sociais são castigados porque cometeram práticas condenáveis pela moral cristã. Apenas dois segmentos são enviados ao paraíso: um bobo (o parvo Joane), cuja loucura o isenta de responsabilidade pelos seus atos, e um grupo de cavaleiros cruzados, que morreram em defesa da fé de Cristo. A própria Igreja, como instituição, não é poupada: um Frade é castigado pelo afastamento da vida espiritual. No entanto, essa crítica atinge apenas o comportamento do clero e não questiona os princípios da religião cristã, defendidos pelo autor.

Gil Vicente

Considerado o fundador do teatro português, suas peças foram produzidas durante a passagem da Idade Média para a Moderna. Apresenta aspectos conservadores (como a defesa da moral cristã) e inovadores (como a crítica à sociedade).

O teatro vicentino é dividido em farsas (peças de caráter cômico e crítico sobre questões sociais) e autos (peças geralmente de cunho religioso).

Auto da Barca do Inferno –

O Parvo

Gil Vicente

“Joane. Hou daquesta!

Diabo. Quem é?

Joane. Eu sô.

É esta a naviarra vossa?

Diabo. De quem?

Joane. Dos tolos.

Diabo. Vossa.

Entra!

(...)

Diabo. De que morreste?

Joane. De quê?

Samicas de caganeira.

Diabo. De quê?

Joane. De caga merdeira!

Má rabugem que te dê!

(...)

Joane. Aguardai, aguardai, houlá!

E onde havemos nós d’ir ter?

Diabo. Ao porto de Lúcifer.”

Análise da Obra:

O BOBO

O parvo (tolo) Joane tem como objetivo provocar o riso, inserindo um elemento cômico em uma peça que trata da trágica realidade da morte e da corrupção da sociedade portuguesa. A inocência e a simplicidade de Joane são encaradas como virtudes que o tornarão merecedor do paraíso. Note que o personagem é apresentado como desatento e desinformado: dirige-se ao Diabo sem medo e o interroga continuamente. A loucura do bobo permite que ele aponte sem receio de censura os problemas da sociedade portuguesa.

LINGUAGEM COLOQUIAL

Os diálogos do Auto da Barca do Inferno estão repletos de expressões populares e elementos característicos da linguagem coloquial do período. Repare na espontaneidade da fala do parvo Joane, que assinala a origem popular da personagem: a pouca instrução e a loucura fazem com que o Bobo possa falar tudo o que lhe vem à cabeça (até mesmo que morreu de “samicas de caganeira”).

IDEOLOGIA

Todo texto veicula determinada ideologia, isto é, um conjunto de ideias, valores e crenças característicos de um período ou de um determinado autor. No caso de Gil Vicente, é possível reconhecer uma defesa de valores morais típicos do cristianismo, como a celebração das virtudes e a condenação dos vícios.

INTENCIONALIDADE

Note a intenção de Gil Vicente de formar um painel representativo dos diferentes grupos da sociedade portuguesa, para apontar modos de correção dos costumes, de acordo com a moral cristã. ───※ •❆• ※───

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