Sala de aula repleta. Cinquenta alunos amontoados, num calor escaldante de verão no Rio de Janeiro. Um ventilador de teto roda preguiçosamente, sem refrescar ninguém. Uma estufa. Abro a porta para ver se entra uma aragenzinha, mas o barulho dos corredores atrapalha. Cenário bem comum nas escolas estaduais por aqui. Alunos agitados querem a todo instante sair para beber água. E como negar?

Retomamos ao assunto da aula anterior: Verbos. Um aluno pergunta: - fessora, for é verbo?”- pedi para conjugar o verbo. E ele continua: - mas como? Eu fonho? Eu nunca ouvi! - respondi pacientemente: - verbo ir... Ele riu e comentou: - língua mais doida! E o que foi fazer esse “F” aí?

Expliquei que era um verbo irregular: Vou, ia, fui, iria, irei, fosse, for, etc. Assim como o verbo ser: sou, era, fui, serei, seria,sê, seja... Verbos de irregularidade profunda são chamados de anômalos.

Voltei para o assunto daquela aula. Pedi que conjugassem o verbo colorir no presente do indicativo. Uns disseram: eu coloro, outros, eu coloiro. Peço também os verbos explodir, abolir, falir.Todos conjugaram naturalmente, como se aquelas palavras estranhas fizessem parte de seu vocabulário. Então lhes apresentei a palavra DEFECTIVO.

– Que palavrão é esse, fessora? –Expliquei que era verbo de conjugação incompleta. Todos que citei não são conjugados na primeira pessoa, alguns também na terceira, e não são os únicos da lista. Soa mal falar coloro, abolo, explodo. Falo ou falho? Nesses casos são os verbos falar e falhar e não falir.

Um aluno, fugindo do assunto, (coisa normal de quem quer mostrar interesse na aula, mas não segue a mesma linha de pensamento) me pergunta:
- Professora, qual o certo? Quatorze ou catorze? -Respondo que ambos estão corretos.
Outro, aproveitando a deixa, pergunta: - Douze ou doze?- Respondi-lhe que o correto é doze e ele argumentou que o Silvio Santos fala douze.
Eu lhe respondo que muitos falam errado, inclusive professores.

Nesse exato momento, somos interrompidos pela entrada da diretora adjunta:- Dá licença, Zezé? Por favor, o aluno que eu chamar, me acompanhe . Problemas com a sua documentação. Se não estiver tudo certo, vocês ficam sem diploma!

- Ela consulta uma lista e chama: - Número DOUZE: Edson Melo Dias (vulgo Edinho Melodia)

A turma caiu na gargalhada. Fiquei sem graça, pois sabia que estavam rindo do “douze”. Ela me olhou num meio sorriso, como se dissesse : “Como são bobos! Riem à toa!”- E foi embora.

*********************************************************************

*O mestre Drummond escreveu: “- Daqui vocês não me tiram – respondeu-lhes a bomba. – O primeiro que me tocar, eu explodo. Talvez este tempo de verbo não exista, mas pouco estou ligando à gramática de vocês. À gramática e ao resto. Estou farta! Farta!” (trecho da crônica A Fugitiva)

Em sua versão eletrônica, o Aurélio afirma que o verbo explodir é defectivo, porém afirma que na língua corrente é normal o uso de explodo.

Cegalla e Sacconi até sugerem que se use o verbo “estourar” para substituir explodir. Sacconi ainda afirma: “Embora a gramática tradicional estabeleça essa regra, a língua cotidiana tem consagrado este verbo na sua conjugação completa, usando expludo como a primeira pessoa do singular do presente do indicativo.

Evanildo Bechara, maior gramático brasileiro vivo, afirma: “Muitos verbos apontados outrora como defectivos são hoje conjugados integralmente: agir, advir, compelir (...)”

Minha opinião? Entendo que a língua está sempre evoluindo. Língua que não muda é língua morta. Se o uso de explodo é corrente, então fico com esta opção. Como expludo também é usado, principalmente em Portugal, as duas opções estão corretas.
(mas, sinceramente...? Se eu escrever num poema meu “expludo de amor!”, o leitor torcerá o nariz e achará que dei mancada. Melhor evitar!)

(Foto google)

, Quase 30 anos depois da sua criação, o deputado imortalizado por Chico Anysio, Justo Veríssimo, continua sendo um retrato do Brasil que nos comanda. Como se viesse se modernizando com o tempo. Não que o humorista fosse um visionário. Simplesmente foi preciso. E os deputados brasileiros continuam precisamente a mesma coisa. Continuam querendo que pobre se exploda. Uma das funções do humor é a denúncia. Durante décadas o dedo de Chico Anysio sempre esteve ali, cutucando as feridas expostas pela nossa sociedade. Mas em Justo Veríssimo ele se superou. Satirizava os da sua época, mas remetia também ao passado e, agora a gente sabe, ao futuro.

Beijinhos,
Jô Tauil

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Respostas a este tópico

Excelente aula, como sempre. De uma forma tranquila e simples nos alcança e clareia nossas noções, às vezes meio apagadas ... rsrs
Parabéns, Jô.

Bjsss Wau

Esta questão da pronúncia realmente varia bastante, por esse motivo muita gente escreve errado, escreve da mesma forma que fala. Aqui onde moro a maioria fala minino, quando se quer dizer menino. Apesar das suas complexidades a Língua Portuguesa é apaixonante! Parabéns pelo texto, querida! Beijo!

Super super! Essas historias em sala de aula tão bem contadas são um luxo. Parabéns!

Excelente aula, Jô! Aplausos sempre! Beijos

Gostei muito! Você conversa e ensina a gente. Obrigado!

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