Olá, amigos! Estarei aqui semanalmente, para falarmos da estética poética e da nossa maltratada língua portuguesa. Sou professora com “trocentos” anos de formada e estive em sala de aula até o ano passado, nas áreas de Português e também de Literaturas, brasileira e portuguesa. Lidando há tanto tempo com o rigor da linguagem culta, certas modernidades ainda me assustam.


Pensando em Literatura como ARTE, fica mais fácil compreender os recursos linguísticos dos quais podemos lançar mão. Seria estranho se nas nossas relações cotidianas nos comunicássemos através de metáforas e outras figuras de linguagem.
A linguagem literária apresenta diferenças singulares. Uma de suas maiores características é a complexidade. Não existe um compromisso com os sentidos que comumente são atribuídos às palavras, extrapolando o nível semântico. Por esse motivo , o texto literário não é apenas objeto linguístico, mas acima de tudo estético. É um trabalho de artesão, que repercute em nós na medida em que revela emoções profundas. Sua compreensão dependerá de nossas vivências e de nosso repertório cultural.

A linguagem não literária é usada em notícias, artigos jornalísticos, textos didáticos, científicos, dicionários, enciclopédias, que objetivam linguagem clara, objetiva e concisa.

Licença Poética? O que é isso?


Nada mais é que uma incorreção de linguagem, que é permitida dentro do contexto da poesia e em outros campos literários. São erros propositais que o poeta faz uso para que um determinado ponto ganhe luz ou seja reforçado. Não mostra desconhecimento do autor, mas uma forma de realçar seu ponto de vista. Muitas vezes é um sacrifício em prol do ritmo e da musicalidade do poema.

Eu sei que começar uma oração com pronome oblíquo é erro, mas como fica melhor?
“Recostar-me-ei em vosso regaço...” (linguagem clássica em poesia)
“Me recostarei em teu regaço”.(linguagem moderna em poesia)
Eu uso a segunda opção para iniciar um verso, mas não por falta de conhecimento.
Vale lembrar esse poema muito conhecido de Oswald de Andrade:

PRONOMINAIS
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da nação brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
*( podemos considerar a existência de “duas gramáticas”: a NATURAL, cujas estruturas e regras todos os falantes (inclusive os analfabetos) conhecem e a NORMATIVA: conjunto sistematizado de regras para se falar e escrever de acordo com o padrão culto da língua)

DE MANUEL BANDEIRA:
PRA MIM BRINCAR
Não há nada mais gostoso do
que o mim sujeito de verbo no
infinito. Pra mim brincar. As
cariocas que não sabem gramática
falam assim. Todos os brasileiros
deviam de querer falar como as
cariocas que não sabem gramática
-As palavras mais feias da
língua portuguesa são quiçá,
alhures e miúde.
(uma proposta bem ousada do Modernismo foi a da identidade do povo brasileiro e o registro, no texto literário, buscando a diversidade das falas brasileiras, mas todo o cuidado com o uso é pouco, afinal, não somos Bandeira. Mais fácil dizerem que erramos feio)

Exemplos de licença poética na música:
“Veio os home com as ferramenta...” (Saudosa Maloca- Adoniran Barbosa)
A gente somos inútil “( Roger Moreira)

Licença ou erro mesmo?
“Aonde está você? Me telefona,” (Lobão) (onde)
Aonde tem preposição, é o mesmo que “para onde”, dá ideia de movimento.
“Pode vim quente que eu estou fervendo.” (Erasmo Carlos) (vir)
(ideia de futuro com um verbo no pretérito)
“Espero a chuva cair de novo pra mim voltar pro meu sertão.” (Asa Branca/ Luiz Gonzaga)
Quem entende não erra mais: sempre que for utilizar antes de um verbo, determinando uma ação (fazemos isso usando o verbo no infinitivo – a forma original do verbo, terminada em AR, ER, IR e OR), usa-se o EU

NEOLOGISMO


Um grande recurso é o neologismo. Criar palavras na linguagem poética. Errado se usado a troco de nada. Muitos , de tão usados, foram parar nos dicionários: minimizar, maximizar, etc. Alguns surgem por necessidade e são logo assimilados, tais como sambódromo e sequestro-relâmpago.

De um poema meu:


“ Vivo camillando acordada ou dormindo”
(ou seja: curtindo a minha neta Camilla)

Beijinhossssssssssssssssssssss,
Jô Tauil

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Respostas a este tópico

Fantástico! Que aula....
"Imvalorável" tamanha qualidade do conteúdo de estreia!
Seja sempre muito bem vinda com vossa maestria amada Jô Tauil

E a gente vai vivendo e aprendendendo... uma verdadeira aula de bom senso alinhado ao conhecimento das regras e normas.
Confesso que há poucas horas eu estava discutindo exatamente esse assunto... o de começar um verso com ME ou usar o hífen e depois o ME... fica feio demais e ninguém fala assim, não é mesmo? Fica algo coloquial e extremamente formal... quebra o ritmo. Aliás, nada para quebrar o ritmo como esse novo (que já é velho) acordo ortográfico. Ele já nasecu errado e estragou a língua de verdade, a meu ver.
Nada como revivar certas coisas para não comtermos erros bobos na grafia... claro que a gente sempre tem dúvida nisso ou naquilo... e vou dizer, na dúvida, eu troco a palavra, porque errar por causa da nova regra é facinho, não é mesmo?
Grande estréia... coisa de Mestra!
Obrigado por estar conosco.
Beijo.

Eita, que essas colunas prometem! De repente a Casa se agita e não vemos a hora de vir aqui ler as crônicas. Renato acertou na mosca! Parabéns pelo texto, Jô! Abraço!!!

E ainda há a variação linguística de caráter regional que torna nossa Língua ainda mais complexa e rica. Beijo, querida!

Não me surpreendo pois conheço de longa data tua maestria. Entretanto, reitero aqui tua irretocável forma de nos repassar lições e conhecimentos duma forma didática e única. Ler-te é sempre uma dádiva. Enriqueces a Casa sob todos os aspectos literários.Muitíssimo obrigada pelos primorosos ensinamentos.

Parabéns Jô! Muito sucesso nessa jornada! Adorei a leitura ! Grande beijo!

Parabéns Jô, pela estreia !
Adorei ler tua coluna que trata de assunto tão importante e sério, mas de forma tão leve e acessível.

Desejo-te imenso sucesso !
E nós, leitores, certamente teremos muito prazer nessas leituras.

Bjsss Wau

Obrigado, Zezinha, mas não sou só eu... o L'(Max) e a Angela Lazzari fazem parte da equipe de criação da seção e ajudaram muito na implantação dela.

Zezinha Lins disse:

Eita, que essas colunas prometem! De repente a Casa se agita e não vemos a hora de vir aqui ler as crônicas. Renato acertou na mosca! Parabéns pelo texto, Jô! Abraço!!!

Com muito prazer que parabenizo além de Renato, a Ângela e o L'(Max) pela ideia que tornou nossa Casa mais movimentada. Beijos a todos!

Só uma mestra para falar deste assunto sem parecer pedante. Coisa linda de se ler.
Adorei o camillando.
Parabéns Jô mais uma vez. Muito feliz e honrada de estarmos alinhadas nesta bela proposta da nossa Casa. Afinal de longa data nossa amizade poetica e virtual.
"Renato, me sentindo a própria sócia" hehe

Jô,
Aplausos! Senti saudade do meu 'palco'. A identificação foi imediata em cada explicação dada sobre a Arte que é a Literatura. Deixei a sala de aula há dois anos, mas a sala de aula 'grudou' em mim. Sem dúvida, serei leitora assídua de sua coluna. Parabens!
Ah, L`Max! Você sempre foi um amigo tão gentil! Sei que não havia nenhuma novidade, mas é muito bom saber que gostou. Beijinhosssssssssssssss

Luciano Petricelli - L'(Max) disse:
Fantástico! Que aula....
"Imvalorável" tamanha qualidade do conteúdo de estreia!
Seja sempre muito bem vinda com vossa maestria amada Jô Tauil

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